Coluna Griô 2.0 passará por 12 cidades do estado


As três rotas vão levar às cidades visitadas debates, oficinas, cineclubes e articulações entre movimentos e agitadores culturais
 

A partir de abril, o Coletivo Catarse e a Universidade Fora do Eixo pegam estrada e iniciam a Coluna Griô 2.0, em um percurso que vai passar por 12 cidades do Rio Grande do Sul, desenvolvendo ações de formação e vivências em diálogo com diversas formas de manifestação cultural, favorecendo debates e articulações entre movimentos sociais, Pontos de Cultura, cineclubes, representantes do poder público, entre outros agitadores culturais. Na mesma Coluna, viajam com o grupo os Mestres Griôs Paraquedas e Paulo Romeu; juntos, eles vão integrar as ações entre as redes através de encontros que propiciarão a troca de tecnologias e a construção de uma ação conjunta entre todos estes grupos.

O projeto nasce durante a 21a Semana da Consciência Negra em 2011, onde o Coletivo Catarse em parceria com o Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, a Secretaria Estadual de Cultura e a Secretaria Estadual de Edução promoveram uma série ações do Projeto Tambor de Sopapo – Resgate Histórico da Consciência Negra, com exibições do documentário O Grande Tambor seguidas de vivências com os Mestres Griôs, em escolas públicas da rede pública da Região Metropolitana de Porto Alegre. 850 jovens foram atendidos pela ação, sucesso que garantiu o apoio do Ministério da Cultura para a ampliação da ação pelo interior do estado.

O grande tambor

“O grande tambor”  narra a  trajetória do Tambor de Sopapo, instrumento que carrega a história da diáspora africana no Rio Grande do Sul. Sua matriz vem pelas mãos e mentes dos africanos escravizados para a região das charqueadas, ao extremo sul do Brasil. É considerado sagrado, retumbando o som  por séculos de um purificar religioso para os rituais de matança – realidade presente nas propriedades que produziam o charque entre os séculos XXVIII e XIX. Mas, a partir na década de 1950, inicia seu caminho no carnaval, quando surgiram as primeiras escolas de samba do estado. O Grande Tambor conta uma parte da história sobre a contribuição dos afrodescendentes na formação simbólica e cultural do povo do Rio Grande do Sul. Sobreviveu pelas mãos de Mestre Baptista, Griô, que preservou a memória e a arte da fabricação de um instrumento de som grave e marcante e que hoje é patrimônio brasileiro.

O documentário longa-metragem do Coletivo Catarse é fruto de 03 anos de pesquisa do projeto “Tambor de Sopapo – RESGATE HISTÓRICO DA CULTURA NEGRA DO EXTREMO SUL DO BRASIL”, aprovado no  Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, do IPHAN. Além do documentário, o projeto lançou sua trilha sonora original , uma cartilha que ensina a fabricar o instumento, e um livro de degravações chamado “O Grande Tambor – Entrevistas dos Mestres Griôs”.

Mestrês Griôs

Mestres Griôs são Mestres que através da oralidade transmitem seus saberes relacionados à ancestralidade, território, produção e etc. Assim, o projeto possui a necessidade de criar uma linha de memória unificada dos mestres griôs, e do ensejo de gerar um cruzamento do fazer e saber digital  com o fazer e saber oral. Ao promover oficinas que levantam a temática da sustentabilidade, apresentações públicas dos mestres, e encontros entre os agentes de cultura e os mestre para produção coletiva audiovisual, a Coluna criará uma teia de transmissão natural, firmando um compromisso de sensibilização, preservação e transmissão da cultura popular brasileira.

Por que Griô 2.0?

Ao capturar oralidades e construir um conhecimento integrado à ancestralidade das memórias, a Coluna vai contruir uma ponte entre os mestres e as gerações futuras. Muito mais do que uma simples caravana, a Coluna tenciona ser um produto novo de valor incalculável, contribuindo concretamente para a promoção, a aquisição de informação e a busca de alternativas auto-sustentáveis para a produção dos mestres griôs, e por extensão, para a cultura brasileira como um todo.

A produção  coletiva que surgirá nesta corrente natural de transmissão entre o tradicional e o digital, e sua disseminação através da WEB, ajudarão ainda a fortalecer a identidade regional dentro de um contexto de mudanças para responder às necessidades de um mundo globalizado, haja vista que a cultura é um dos principais pilares do desenvolvimento.

Desenvolvimento, aqui, não é só o econômico (produção de riquezas) mas também o desenvolvimento local, humano (qualidade de vida), social (para todos) e sustentável (desta e das próximas gerações), levando à construção de saberes que buscam atingir um padrão de organização em rede, com as características de interdependência, parceria, flexibilidade e diversidade.


UniFDE – Universidade Fora do Eixo

A Universidade Livre Fora do Eixo (UniFDE) surge a partir da necessidade de organização, sistematização e difusão do conhecimento produzido pelo Fora do Eixo, além da busca da conexão com grupos, parceiros e entidades, para a construção e a democratização de tecnologias sociais, conhecimentos teóricos e práticos mais sustentáveis ligados ao tema da cultura. Busca também estimular o debate e a geração de propostas para novas metodologias de formação, a partir da premissa de livre acesso ao conhecimento. O Fora do Eixo é uma rede de cultura livre que conecta pontos de articulação, linguagem e parceiros do campo cultural independente, além de integrar movimentos sociais e catalisadores de ações em torno da economia solidária e cultural digital. Saiba mais.

Conheça as rotas

O primeiro caminho, intitulado de Rota da Uva, parte de Porto Alegre e chega em Bento Gonçalves no dia 23 de abril. Eles ficam na cidade até dia 25, quando partem para Caxias do Sul. Em seguida, viajam para Vacaria e retornam à capital gaúcha.

A segunda parte, chamada de Rota da Cuca, chega a Soledade no dia 07 de maio e já no dia seguinte, viaja para Erechim. A terceira cidade visitada é Santo Ângelo, no dia 09 de maio e fica até dia 11, quando vai para Ijuí. O grupo fica até 13 de maio para retornar, novamente, à Porto Alegre.

O terceiro trecho, nomeado de Rota do Charque que chega à Pelotas dia 14 de maio e fica na cidade até dia 17, quando segue caminho para Jaguarão. Lá, eles permanecem até dia 20 de maio, quando viajam para Bagé. Em seguida, vão para a última cidade da rota, Livramento, onde se instalam até dia 24 e retornam para PoA.

Um pouco mais sobre os Mestres Griôs

Mestre Paraqueda – Eugênio da Silva Alencar, conhecido como Mestre Paraqueda, de 76 anos, é músico, compositor, poeta, desenhista, um contador de histórias. Vivenciou os chamados territórios negros em Porto Alegre: nasceu na região de Alto da Bronze, morou no Areal da Baronesa, no Menino Deus, dentre outras regiões da cidade que concentraram os descendentes de africanos. A ligação com o samba veio através da família, que costumava tocar e cantar em festas, nos finais de semana. Começou a compor por volta dos oito anos, na metade da década de 1940. Seu apelido veio de quando serviu ao Exército como para-quedista. Foi assim que conheceu o Rio de Janeiro e lá conviveu com o cotidiano da Escola de Samba Portela. Participou também dos ranchos da Unidos da Vila Valqueire. Sua relação com o carnaval é muito forte. Compôs mais de 60 temas, sendo que 40 viraram sambas enredos de diferentes escolas de Porto Alegre. Fundou diversas sociedades carnavalescas da cidade como o Comandos do Morro, o Sambão, o Samba Puro, Unidos da Conceição, dentre outras. Como desenhista, construiu diversas alegorias para estas sociedades e escolas de samba. Gravou muitos sambas enredos dos carnavais de Porto Alegre e teve outras músicas gravadas por outros intérpretes. Uma destas, chamada “É morro, é favela, é gueto, é quilombo” foi censurada pela ditadura militar. Sua trajetória é marcada pela resistência das culturas populares, da negritude do pampa, municiada pela música e poesia.

Mestre Paulo Romeu, de 53 anos, é músico, compositor e educador popular. Nasceu no Areal da Baronesa, antigo território negro do hoje conhecido bairro Cidade Baixa. Foi incentivado para a música e a composição desde cedo por seu pai, Paulo Santos Deodoro, também músico. Paulo Santos tocou com muitos músicos da cena de Porto Alegre, como Lupicínio Rodrigues que morava perto do Areal, e acabou levando seu filho Paulo Romeu para as rodas de samba, de seresta, de cantoria. Deste tipo de contato, que Paulo Romeu herdou a paixão pela música e composição. No início da década de 1970, fundou o grupo Afrosul, que misturava música e dança com a temática da negritude. O grupo, que deu origem a instituição Odomode, foi um dos que, junto com o Movimento Negro, se envolveram na proposta da afirmação do Dia da Consciência Negra, provocado pelas vozes dos negros do sul e reconhecido hoje em todo o país. Foi mestre de bateria por muitos anos e participou de vários carnavais. Sua primeira regência se deu aos 14 anos no bloco da Sociedade Israelita. Gravou com diversos grupos e músicos, como: Pau Brasil, Bedeu, Luiz Vagner, Heraldo Dumonte, Maestro Sergio Lemke, Pantera do Trombone, dentre outros. As culturas populares de matriz africana são o mote de suas composições, perpassadas por outros temas que são inseparáveis e que se completam, como o amor, a espiritualidade, a sociedade e suas desigualdades. Hoje ainda ministra oficinas de percussão, que aliam a música à inclusão social, onde os tambores fabricam novas canções de vida.


Quero participar

Os agentes culturais que quiserem entrar em contato com o grupo para fazer parte da agenda de debates, oficinas e demais atividades podem enviar email para sarah@coletivocatarse.com.br, ou telefonar para a Casa Fora do Eixo PoA (51) 3225-3975.

Links úteis:

Coletivo Catarse

Casa Fora do Eixo Porto Alegre

Projeto Tambor de Sopapo

Reportagem TV Brasil Semana da Consciência Negra

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Categorias: Memória e Patrimônio

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